24 de abr de 2012



 "No presente livro reúnem-se, além das
clássicas traduções francesas de Baudelaire e
Mallarmé, todas as mais importantes traduções
em língua portuguesa, cobrindo um período
de quase um século, com as suas infinitas
diferenças e similitudes. Esperamos dessa
maneira, dar ao leitor um instigante panorama
dos voos de O Corvo por outros territórios e
na nossa língua."

Trecho da orelha do livro por
Carlos Heitor Cony.

O poema tem 18 estrofes, abaixo, a primeira
estrofe do original e duas traduções em
português:

The Raven
Edgar Allen Poe
1845

Once upon a midnight dreary,
while i pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious
volume of forgotten lore,
While a nodded, nearly napping,
suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping,
rapping at my chamber door.
"Tis some visitor", i muttered,
"tapping at my chamber door -
Only this, and nothing more"

Tradução de Milton Amado, segundo
Ivo Barroso, a insuperável em
Língua Portuguesa:

Foi uma vez: eu refletia,
à meia-noite erma e sombria,
a ler doutrinas de outro tempo
em curiosíssimos manuais,
e, exausto, quase adormecido,
ouvi de súbito um ruído,
tal qual se houvesse alguém
batido na minha porta, devagar.
"É alguém - fiquei a murmurar -
que bate à porta devagar;
sim, é só isso e nada mais."

Tradução de Machado de Assis
1883

Em certo dia, à hora, à hora.
Da meia noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devaguarinho,
E disse estas palavras tais:
"É alguém que bate à minha porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais".

23 de abr de 2012


MIXMIXMIX

22 de abr de 2012



Conversa com a pedra.

Bato à porta da pedra.
- Sou eu, me deixa entrar.
Quero penetrar no teu interior
olhar em volta,
te aspirar como ar.

- Vai embora - diz a pedra. -
Sou hermeticamente fechada.
Mesmo partidas em pedaços
seremos hermeticamente fechadas.
Mesmo reduzidas a pó
não deixaremos ninguém entrar.

Bato à porta da pedra.
- Sou eu, me deixa entrar.
Venho por curiosidade pura.
A vida é minha ocasião única.
Pretendo percorrer teu palácio
e depois visitar ainda a folha e a gota d'água.
Pouco tempo tenho para isso tudo.
Minha mortalidade deveria te comover.

- Sou de pedra - diz a pedra -
e forçosamente devo manter a seriedade.
Vai embora.
Não tenho os músculos do riso.

Bato à porta da pedra.
- Sou eu, me deixa entrar.
Soube que há em ti grandes salas vazias,
nunca vistas, inútilmente belas,
surdas, sem ecos de quaisquer passos.
Admite que mesmo tu sabes pouco disso.

- Salas grandes e vazias - diz a pedra -
mas nelas não há lugar.
Belas talvez, mas para além do gosto
dos teus pobres sentidos.
Podes me reconhecer, nunca me conhecer.
Com toda minha superfície me volto para ti
mas com todo meu interior permaneço de costas.

Bato à porta da pedra.
- Sou eu, me deixa entrar.
Não busco em ti refúgio eterno.
Não sou infeliz.
Não sou uma sem-teto.
O meu mundo merece retorno.
Entro e saio de mãos vazias.
E para provar que de fato estive presente,
não apresentarei senão palavras,
a que ninguém dará crédito.

- Não vais entrar - diz a pedra. -
Te falta o sentido da participação.
Nenhum sentido te substitui o sentido da participação.
Mesmo a vista aguçada até a onividência
de nada te adianta sem o sentido da participação.
Não vais entrar, mal tens ideia desse sentido,
mal tens o seu germe, a sua concepção.

Bato à porta da pedra.
- Sou eu, me deixa entrar.
Não posso esperar dois mil séculos
para estar sob seu teto.

- Se não me acreditas - diz a pedra -
fala com a folha, ela dirá o mesmo que eu.
Com a gota d'água, ela dirá o mesmo que a folha.
Por fim pergunta ao cabelo da tua própria cabeça.
O riso se expande em mim, o riso, um riso enorme,
eu que não sei rir.

Bato à porta da pedra.
- Sou eu, me deixa entrar.

- Não tenho porta - diz a pedra.


Wislawa Szymborska

18 de abr de 2012

Filme da Marni,
2010, Fall Winter Woman,
LINDO, LINDO, LINDO,
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11 de abr de 2012



Wislawa Szymborska
(pronuncia-se mais ou menos Vissuáva Chembórska)
nasceu em 1923, no vilarejo de Bnin, hoje parte de
Kórnik, uma pequena cidade próxima a Poznán, na Polónia. 
(poemas)



A Vida na Hora

A vida na hora.
Cena sem ensaio.
Corpo sem medida.
Cabeça sem reflexão.

Não sei o papel que desempenho.
Só sei que é meu, impermutável.

De que se trata a peça
devo adivinhar já em cena.

Despreparada para a honra de viver,
mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação.
Tropeço a cada passo no desconhecimento
das coisas.
Meu jeito de ser cheira a província.
Meus instintos são amadorismo.
O pavor do palco, me explicando,
é tanto mais humilhante.
As circunstâncias atenuantes me parecem
cruéis.
                                                 
Não dá para retirar as palavras e os reflexos,
inacabada a contagem das estrelas,
o caráter como o casaco às pressas abotoado -
eis os efeitos deploráveis desta urgência.

Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira
antes ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!
Mas já se avisinha a sexta com um roteiro que não
                                                                        [conheço.

Isto é justo-pergunto
(com a voz rouca
porque nem sequer me foi dado pigarrear
nos bastidores).

É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida
feita em acomodações provisórias. Não.
De pé em meio à cena vejo como é sólida.
Me impressiona a precisão de cada acessório.
O palco giratório já opera há muito tempo.
Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.
Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia.
E o que quer que eu faça,
vai se transformar para sempre naquilo que fiz.

Wislawa Szymborska




Ganhadora do prêmio Nobel de literatura
de 1996 (premiação justa diga-se de passa-
gem), a polonesa Wislawa Szymborska
sempre escreveu pouco. Beirando os noventa
anos, toda sua produção, que cabe num volu-
me relativamente pequeno, pode ser lida em
um dia ou dois, mas requer tempo para ser de
fato apreciada. E isso não porque ela "escreve
difícil", pois , para os poetas poloneses nascidos
no entreguerras, quando seu país ressurgiu das
ruínas de três impérios, não havia crime ou pe-
cado maior que o hermetismo, a obscuridade.
Pelo contrário: seus versos, que, lúcidos e
acessíveis, nunca recorrem a referências esoté-
ricas e a passes verbais de mágica, desdobram-se
quase como equações lógicas cuja argumentação
pode ser acompanhada por qualquer um. Nem
por isso se trata de uma poesia fácil, no sentido
de feita com facilidade. Sua arte, que é da con-
tenção, da economia e da reticência, pressupõe,
em cada poema uma intencionalidade meticulosa-
mente pensada e, portanto, uma prolongada 
gestação. A polonesa só escreve seus poemas 
necessários e os escreve apenas uma vez, vale
dizer, ela inventa procedimentos novos para cada
um deles e não os repete nem os converte, como
fazem bardos menores, em matriz xerográfica
de dúzias de poemas similares...

Trecho da orelha do livro, escrito 
por Nelson Ascher.




3 de abr de 2012



PINA-Imperdível

Fui assistir Pina, e o que dizer do filme mais indizível
que vi na vida? Posso dizer que vou ver de novo, duas,
 três ou mais vezes, e que me sinto muito feliz e privilegiada
por ter visto ao vivo, várias daquelas coreografias.

Em 2010,  pintei estes quadros com imagens dos ballets da Pina. 

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