28 de mar de 2012

MIX

27 de mar de 2012

OS LIMÕES

Escuta-me, os poetas laureados
movem-se tão somente entre as plantas
de nomes pouco usados: buxos ligustros e acantos.
Eu, por mim, gosto de caminhos que levam às agrestes
valas aonde em poças
já meio secas rapazes apanham
alguma enguia miúda:
as veredas que seguem junto às bordas,
descem por entre os tufos de canas
e chegam até os hortos, no meio dos limoeiros.

É melhor quando a algazarra dos pássaros
se dilui e é tragada pelo azul:
mais claro se há de escutar o sussurro
de ramos amigos no ar que quase não se move,
e as sensações desse cheiro
que não se aparta da terra
e chove no peito uma doçura inquieta.
Aqui das distraídas paixões
por um milagre cala-se a guerra,
aqui até a nós pobres cabe nossa parte de riqueza
e é o aroma dos limões.

Vês, é nesses silêncios em que as coisas
se abandonam e como que estão prestes
a trair o seu último segredo,
que por vezes se espera
descobrir um engano da Natureza,
o ponto morto do mundo, o elo que não resiste,
a mecha a deslindar que enfim nos ponha
no âmago de uma verdade.
O olhar revista em torno,
a mente indaga reúne separa
no perfume que alastra
quanto mais langue o dia.
São os silêncios em que se avista
em toda sombra humana que se afasta
alguma importunada Divindade.

Mas a ilusão falha e o tempo nos reporta
às ruidosas cidades onde o azul se mostra
só aos pedaços, no alto, entre as cimalhas.
A chuva cansa a terra, depois; cerra-se
o tédio do inverno sobre as casas,
a luz se torna avara- a alma amarga.
Quando um dia um portão entreaberto
em meio às árvores de um pátio
nos mostra os amarelos dos limões;
e o gelo do coração se desfaz,
e brotam em nosso peito
as canções que ressoam
dos seus clarins de ouro solar.

Eugenio Montale
Ossos de Sépia

17 de mar de 2012



LYGIA PAPE
(1927/2004), ganha retrospectiva na Estação Pinacoteca,
com a  exposição,"Lygia Pape - Espaço Imantado".
O intuito da mostra é fazer com que o público entre
em contato com o lado sensorial e poético da artista -
Lygia é uma das mais importantes artistas brasileiras,
e uma das precursoras da arte contemporânea no Brasil.
Fui hoje, imperdível!



Espaço Imantado

A partir das minhas andanças de carro pela cidade - porque
eu ando muito de carro - fui percebendo um tipo novo de
relação com o espaço urbano, assim como se eu fosse uma
espécie de aranha tecendo o espaço, pois é um tal de vai daqui,
cruza ali, dobra adiante, sobe e desce em viadutos, entra e sai
de túneis, eu e todas as pessoas da cidade, que é como se
passássemos a ter uma visão aérea da cidade e ela fosse uma
imensa teia, um enorme emaranhado. E eu chamei de espaços
imantados porque aquilo tudo era uma coisa viva, como se eu
fosse caminhando ali dentro a puxar um fio que se trançasse e
se enovelasse ao infinito.

E o camelô também seria uma forma de espaço imantado,
no sentido de que ele chega assim numa esquina, abre aquela
malinha e começa a falar, criando de repente uma imantação,
com as pessoas todas se aproximando, se ligando àquele
discurso irregular, às vezes curto, às vezes longo, e de repente
ele fecha a boca, fecha a caixinha, e o espaço se desfaz.

E tem também outros espaços que eu considero como espaços
imantados naturais, como é o caso da Baixada Fluminense,
que é um espaço agressivo, terrível, furioso, desesperador e
belo. É um espaço que eu identifico assim que o encontro.
Eu chego lá e sinto toda aquela força, entende? Assim como
na rua da Alfândega, onde você capta imadiatamnte toda uma
poética própria. No caso da Baixada, trata-se de uma poética
muito particular, violenta, terrível e constrangedora, na sua
fúria: a tragédia do homem anônimo, perdido e só.

Lygia Pape


O final do filme italiano Golden Door, de 2006, em
que os atores aparecem nadando em um mar de leite,
com música de Nina Simone, me lembra a obra
Divisor, de 1968, da Lygia Pape.


Assiste os dois filmes juntos!

14 de mar de 2012

"Do leste se ouviu o contínuo soar dos sinos,
sinos de toque sonoro e sinos de toque abafado,
sinos pravoslavos, sinos anglicanos, sinos gregos,
sinos abissínios, romanos, armênios, como se a
cidade estivesse assolada por peste ou incêndio.
Mas esses sinos não estavam lá senão
para chamar a noite de noite."

Amós Oz, no livro que estou lendo, O Monte do
Mau Conselho.

8 de mar de 2012


"Não é necessário que você saia de casa. Fique junto 
à sua mesa e escute. Nem mesmo escute, só espere. 
Nem mesmo espere, totalmente em silêncio e sozinho. 
O mundo irá oferecer-se a você para o próprio 
desmascaramento, não pode fazer outra coisa, 
extasiado ele irá contorcer-se a seus pés."

Franz Kafka

3 de mar de 2012

LES NOCES

Hoje, lendo a crônica "10 músicas que abalaram o mundo"
do Gilberto Mendes, no Caderno 2, em um trecho ele diz:

..."dos quatro pianos em Les Noces, do velho Stravisnki,
O MAIOR! Tentaremos montar Les Noces, este ano, e faço
questão de participar do coro. É a música mais eletrizante
e arrebatadora que conheço".

...me lembrei do ballet "Noces", de Stijn Celis que assisti
no Grand Palais em 2009, nunca vou me esquecer da coreografia
que vi naquela noite, com a música eletrizante de Stravisnki.


       
       Cenas do ballet "Noces"
   

2 de mar de 2012

VENEZA
 




Fotos Annelise de Salles

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